Marcas da enchente: um ano após tragédia, famílias ainda lutam para recuperar estragos - Jornal Iratiin

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sábado, 6 de junho de 2015

Marcas da enchente: um ano após tragédia, famílias ainda lutam para recuperar estragos

O dia 07 de junho de 2014 é uma data que marcou a memória do Sul do país, não há quem não lembre das enchentes que atingiram mais de 1 milhão de pessoas no Paraná e Santa Catarina.
Um ano após a tragédia, mesmo com todos os esforços, recursos e solidariedade, muitas famílias atingidas ainda se recuperam do ocorrido, algumas já conseguiram resgatar o necessário para seguir em frente, outras ainda têm nas paredes e nos móveis as marcas do temporal que levou tudo o que possuíam.

Em junho de 2014, a equipe do Hoje Centro conversou com João Batista, morador do bairro Canisianas, e ele relatou que não conseguiu sair de casa com a família antes que a enchente chegasse. “A primeira enchente baixou e logo já veio a segunda, que inundou tudo. Nós não tivemos tempo de sair. A minha esposa e família saíram de barco e eu sai com o trator, era 11 horas da noite”, contou o morador.

Quase um ano depois, a equipe voltou à casa de João Batista e conversou com sua esposa, Sebastiana de Fátima de Souza. Segundo ela, o povo de Irati e de toda a região é muito solidário, pois a família conseguiu recuperar móveis e reparar os danos causados pela enchente. “Acho que a gente perdeu uns 70% do que tinha, roupas, colchão, cama, sofá e recuperamos tudo através de doação. A única coisa que eu comprei foi um computador para os meninos, eu tinha comprado um em 10 vezes, estava pagando a quinta prestação quando deu a enchente, o mesmo aconteceu com as camas box que tinha comprado, mas os colchões doados eu consegui”, relata. “Acho que eu ganhei uns três colchões de casal, mas algumas famílias não ganharam, então como eu precisava de um só, eu doei os outros pra quem precisava”, diz Sebastiana.

A senhora Idalina da Luz Kollaritsch, mora na Avenida Francisco Perusso, no município de Rebouças, e relata que as perdas tanto dela quanto da família, que reside nas casas vizinhas, foram muito grandes. “A água não chegou a cobrir minha casa, mas já foi suficiente para causar estragos. O sofá, o armário da cozinha e mais alguns móveis, hoje não dá nem para mexer do lugar senão desmontam”. Com a enxurrada, Idalina perdeu sua criação de galinhas e uma égua. A senhora ainda não conseguiu recuperar tudo o que foi perdido. “A chuva foi muito forte, virou a casa de ponta cabeça e muita coisa foi arrastada”, comenta a senhora.

Luci Helena Nepomoceno é filha de Idalina e mora na mesma avenida, mas os estragos em sua casa foram muito maiores. “Água até o teto, todos nós saímos de casa e fomos abrigados na casa de conhecidos, quando a água baixou eu não tive vontade nem de voltar pra casa. Meu guarda-roupas até hoje está sem fundo e quase não dá para encostar em alguns móveis senão despenca tudo”, relata Luci. “A vida ainda está muito difícil, porque em casa só eu trabalho, vamos comprando as coisas aos poucos, fazendo dívidas e pagando da maneira que dá”, diz a moradora.

Marli Machacowski mora no bairro Rio Bonito, em Irati, e seu marido possui uma oficina ao lado da residência, com a enchente, os carros que estavam na oficina foram atingidos. “Alguns carros tiveram problemas com o motor, a chuva foi muito rápida e não deu tempo de tirar e erguer muita coisa, porque na ocasião só eu e meu menino mais novo estávamos em casa. Como era nossa responsabilidade, fizemos algumas dívidas, mas conseguimos pagar os prejuízos dos carros, hoje está tudo bem, alguma coisa eu já comprei, mas ainda falta muita coisa para recuperar. A gente limpou o básico, vai fazer um ano e eu ainda vou pegar coisas para limpar com barro”. Ela acredita que muitas ações que poderiam ser tomadas para evitar que a água chegue nas casas ainda não foram realizadas.
Maria Gorete de Oliveira mora com o filho no bairro DER, também em Irati, e mesmo um ano após a água ter invadido e chegado a quase um metro de altura em sua casa, ainda é possível ver as marcas do desastre em seus pertences. “A minha mesa e um rack ficaram tortos, eu perdi cama, guarda-roupa e precisei comprar. A maioria dos móveis eu reaproveitei, mas até hoje se você procurar por aqui ainda encontra barro seco da enxurrada em algumas coisas”, conta.

As paredes da casa precisaram ser trocadas, as madeiras foram doadas. Maria também recebeu algumas roupas, dois cobertores e dois colchões, um deles ela repassou para vizinha. “Como eu comprei a cama e o guarda-roupa, não queria abusar, dei para quem estava precisando também”, afirma. Com as últimas chuvas, Maria está preocupada que o mesmo aconteça novamente. “Nessa última semana que choveu quase todos os dias a gente já começa a lembrar e fica atento com o que pode vir, todo mundo ficou com trauma do que aconteceu”, conclui Maria.

Irati
Em Irati, os prejuízos com a enchente ultrapassaram os R$ 30 milhões em danos aos particulares e públicos. Foi a pior enchente já vista no município, superando inclusive a enchente de 1983, que desabrigou mais de 70 mil pessoas no Paraná.

Arquivo/Hoje Centro Sul
Através da Defesa Civil do estado do Paraná, a Assistência Social de Irati, recebeu kits, roupas, alimentos, entre outros utilitários que foram repassados às famílias atingidas pela enchente. A Assistência Social do município organizou um mapa para que o atendimento aos beneficiários fosse feito, exclusivamente para as famílias que foram atingidas pelas chuvas. Ao todo durante o mês de junho de 2014, foram realizados mais de 2000 cadastros de famílias interessadas em receber os recursos oferecidos pela assistência social.

As doações recebidas pela Defesa Civil contabilizaram no mês de junho de 2014: 800 cestas e kits de doação, 300 kits de limpeza, 300 kits de higiene, 1.000 cobertores, 1.000 fraldas, 6.000 litros de óleo diesel, 80 colchões de solteiro. Além dos kits, foram repassados ao município R$ 530 mil provenientes de recursos federais.

No dia 25 de fevereiro de 2015, a Câmara Municipal de Irati, organizou uma Audiência Pública para que fossem discutidas ações que podem ser realizadas para amenizar os problemas de enchentes e alagamentos que a cidade vem enfrentando nos últimos anos. No evento, estiveram presentes membros da sociedade, comerciantes, especialistas, vereadores e integrantes da administração municipal de Irati.

Além das apresentações dos munícipes, a Prefeitura Municipal de Irati, através da Secretaria de Arquitetura, Engenharia e Urbanismo apresentou as ações - atualmente em desenvolvimento pela administração - para conter o problema das enchentes e alagamentos. Dentre elas: levantamento estrutural e topográfico realizado nas galerias pluviais centrais da cidade e o decreto, assinado pelo prefeito Odilon Burgath, que regulamenta construções em Irati.

Outro assunto tratado foi o serviço de dragagem que está sendo realizado no Rio das Antas desde o ano passado. O trabalho que teve seu começo na região da Vila Nova, deve percorrer toda a extensão do rio até sua nascente na Vila São João, recuperando e desobstruindo os pontos mais críticos.
O secretário de Arquitetura, Engenharia e Urbanismo, Sandro Podgurski, afirma que a administração está preocupada em resolver todos os problemas. “Já estamos tomando diversas ações, como a limpeza de galerias, estudo topográfico das estruturas destas galerias e um decreto que regulamenta as construções em Irati, porém, para que solucionemos estes problemas, precisamos da paciência de todos, queremos fazer um sistema de macro-drenagem em nossa cidade, mas infelizmente não temos recursos para realizarmos todos estes trabalhos, nós estamos buscando e vamos cada vez mais trabalhar para solucionar estes problemas”, relata Sandro.

A tenente do Corpo de Bombeiros de Irati, Carla Spak, afirma que a Prefeitura Municipal de Irati através da Defesa Civil e em conjunto com Corpo de Bombeiros, vem se organizando para evitar outros eventos danosos. “Tivemos a elaboração do Plano de Contingência que somente documentou um trabalho que já vinha sendo organizado pela Comissão Municipal de Proteção e Defesa Civil de Irati. Foram realizados os cadastros das famílias que possuem residências em áreas de risco e serão aproveitado alguns dados para podermos criar um sistema de alerta que após, testado será repassado através de palestras as pessoas cadastradas”, explica a tenente.


Arquivo/Hoje Centro Sul
Rebouças
Em relatório entregue pelo município à Defesa Civil do Paraná, Rebouças registrou perdas profundas em junho de 2014, em virtude do alto índice de chuva que foi superior a 400 mm. A infraestrutura municipal foi gravemente atingida, havendo a destruição de pontes, pontilhões, bueiros, prédios públicos, vias urbanas, estradas rurais e um número considerável de residências, indústrias e comércio. O abastecimento de água ficou paralisado por 72 horas de maneira intermitente, sendo que pelo menos 24 horas de maneira ininterrupta. Os prejuízos com a enchente contabilizaram R$ 21 milhões. Foram 652 edificações atingidas, com um total de 3 mil desalojados e 322 desabrigados.

Mallet
Aproximadamente R$ 9 milhões em prejuízos foram contabilizados entre público e privado no município de Mallet. Foram 306 residências atingidas, e entre desabrigados e desalojados foram aproximadamente 1.109 pessoas.

De acordo com o coordenador da Defesa Civil, Alcides Pappis, todas as famílias conseguiram se restabelecer. A prefeitura atuou na doação de cestas básicas, colchões, roupas, material de limpeza, além de reconstruir estradas e pontes. Apenas uma das pontes sobre o Rio Potinga ainda não foi reconstruída. Mas, segundo informações da assessoria de comunicação, a Prefeitura Municipal de Mallet já cadastrou projetos junto a outras esferas governamentais para obter recursos para a reconstrução.

No dia 08 de agosto, a Prefeitura Municipal de Mallet realizou a validação e assinatura do Plano de Contingência Municipal.

Alcides frisa que o trabalho de Defesa Civil é muito abrangente “ele envolve não apenas o socorro às vítimas, mas também o preenchimento de documentação para que o município receba auxílio de outras esferas governamentais em casos de emergência”, destaca o coordenador.
Imbituva
Em Imbituva, a Defesa Civil contabilizou prejuízos que ultrapassaram R$ 1 milhão, sendo que R$ 900 mil foram em infraestrutura e outros R$ 150 mil em conjuntos habitacionais. Ao todo, 10 famílias ficaram desabrigadas após as chuvas. Quatro delas foram desabrigadas por conta dos deslizamentos e outras seis por conta da água que invadiu as casas. Além dessas famílias, outras 3.530 pessoas que moram no interior ficaram ilhadas, devido à destruição que as chuvas causaram nas estradas do município.

Inácio Martins
Em Inácio Martins, os prejuízos ocasionados pelas chuvas ultrapassam R$ 5 milhões, sendo que R$ 3,5 milhões foram em obras e infraestrutura e outros R$ 1,5 milhões em unidades habitacionais. Os deslizamentos de terra causaram os maiores problemas, pois muitas famílias do município moram em encostas de morro e a chuva ocasionou sete pontos de deslizamento. Com isso, cerca de 80% da população rural ficou sem acesso a cidade na época. As chuvas desabrigaram 160 pessoas e desalojaram 100 pessoas.

Teixeira Soares
Em Teixeira Soares foram 3.664 famílias afetadas, sendo que uma delas foi desabrigada. Teixeira Soares contabilizou inicialmente, em torno de R$ 1,2 milhões em prejuízos. Permaneceram vários dias sem acesso as estradas que ligam Teixeira Soares ao município de Imbituva, Kalinoski na ponte do Rio Imbituvão que liga a Colônia Guaraúna e Assentamento Ernesto Che Guevara à Ponta Grossa.

Rio Azul
Em Rio Azul, apesar dos prejuízos significativos em infraestrutura, principalmente em pontes e estradas, segundo a Defesa Civil, poucas famílias foram atingidas pela enchente. A Defesa Civil de Rio Azul contabilizou os prejuízos nas estradas e pontes do município em R$3 milhões.

Prudentópolis
Em Prudentópolis, dados da Defesa Civil do município estimaram que cerca de 250 alqueires foram perdidos e quase 8 mil produtores rurais foram afetados. A economia da cidade gira em torno da agricultura, que sofreu perdas nas lavouras, na pecuária, piscicultura e nas olarias. Ficaram alagadas 72 casas e cinco foram interditadas. Foram atendidas 58 famílias, somando um total de 172 pessoas.


07 de junho de 2014
Quem não lembra das enchentes que afetaram centenas de famílias? A água invadiu casas, danificou móveis e eletrodomésticos, possibilitou que barcos circulassem pelas ruas, interrompeu o abastecimento de água potável e de eletricidade por horas ou até mesmo dias, destruiu estradas e pontes, além de deixar alguns municípios ilhados.
Mais de 1.462.000 paranaenses e catarinenses foram atingidos pelas fortes chuvas que trouxeram a tona danos diversos. Desmoronamentos impediram a passagem em importantes ligações do Paraná e Santa Catarina com o restante do país, como as BRs 277 e 116.  Ainda foram registradas mortes de pessoas, levadas pela intensidade das águas.

Segundo a Secretaria de Proteção Nacional e Defesa Civil, através de publicação no Diário Oficial da União, em 25 de junho de 2014, mais de 822 mil pessoas foram afetadas pelos temporais no estado do Paraná. Dessas, onze morreram e 228 ficaram feridas. Mais de 26 mil pessoas ainda permaneciam desalojadas, do total de 42 mil, e quase 2 mil ainda permaneciam em abrigos no final de junho, dos 6 mil desabrigados inicialmente. O Paraná teve o maior número de municípios afetados pelas chuvas torrenciais: do total de 399 municípios, 156 foram atingidos e 147 foram decretados em estado de emergência com reconhecimento federal.

Em Santa Catarina, foram mais de 640 mil pessoas atingidas em 38 municípios, todos em situação de emergência reconhecida pela União.

A grave situação dos paranaenses fez com que o governador Beto Richa reunisse sua equipe já no domingo (08), liberando verbas para a saúde, para a compra de vacinas, destinando caminhões lotados com colchões e mantimentos aos municípios mais afetados.
Em apoio às populações do Paraná e de Santa Catarina após as chuvas nas regiões, no dia 16 de junho, o Ministério da Integração Nacional já contabilizava o total de R$ 5,4 milhões em recursos do governo federal. Sendo R$ 3,9 milhões destinados ao estado do Paraná e R$ 1,5 milhões à Santa Catarina.

No Paraná, o recurso foi destinado a compra de 4,2 mil kits de alimentos (no valor de R$ 346,8 mil), 4,2 mil kits de dormitórios (no valor de R$ 649,8 mil), além de apoio com helicópteros do Exército Brasileiro (no valor de R$ 90 mil), implantação de três pontes móveis (no valor de R$ 570 mil) e ações de socorro sob responsabilidade do Exército Brasileiro (no valor de R$ 105 mil). Mais R$ 2,1 milhões foram previstos para com pra de mais 10 mil kits de alimentos (no valor de R$ 825,8 mil) e 8 mil kits dormitórios (no valor de R$ 1,3 milhão).

Em Santa Catarina, foram liberados recursos para a aquisição de 5 mil kits de alimentos (no valor de R$ 417,8 mil), publicada nesta segunda-feira (16) no Diário Oficial da União; o envio de 5 mil kits dormitórios (no valor de R$ 833,1 mil), de 5 mil kits de limpeza (no valor de R$ 280,8 mil) e de mais 25 mil litros de água (no valor de R$ 24,8 mil).

No dia 24 de junho, a Caixa Econômica Federal liberou o saque do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) aos trabalhadores residentes nas áreas atingidas pelas cheia, mais de 8 mil trabalhadores tinham direito ao benefício no Paraná.


Ana Paula Schreider/Hoje Centro Sul