Sistemas tradicionais e Agroecológicos de erva-mate busca na FAO o reconhecimento como patrimônio agrícola mundial - Jornal Iratiin

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terça-feira, 8 de março de 2022

Sistemas tradicionais e Agroecológicos de erva-mate busca na FAO o reconhecimento como patrimônio agrícola mundial



Reconhecimento Internacional

Em dezembro de 2021, a FAO no Brasil realizou uma missão para a avaliação da candidatura da produção tradicional de erva-mate no Paraná como um dos Sistemas Importantes do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM). A produção no Centro-Sul e Sudeste do Paraná envolve a família Vergopolem, além de outros aproximadamente 7 mil agricultores e agriculturas familiares, e alia a produção agrícola à manutenção de tradições, valorização social, saberes e técnicas populares, bem como a preservação do meio ambiente.

Ao redor do mundo, a FAO reconhece 62 sistemas agrícolas, em 22 países. Destes, apenas quatro estão na América Latina. O “Sistema Tradicional e Agroecológico de Erva-mate na Floresta com Araucária” é candidato a ser a segunda iniciativa brasileira reconhecida pelo programa SIPAM – a primeira foi o sistema tradicional das comunidades apanhadoras de flores sempre-vivas, da Serra do Espinhaço em Minas Gerais

Todos os dias pela manhã, Verônica Vergopolem se levanta para cuidar do cultivo na propriedade “Serra das Araucárias”, no interior do Paraná, município de Bituruna. A produção de erva-mate é responsável pelo sustento financeiro, e a horta pela segurança alimentar da família, que praticamente não compra alimento. De forma agroecológica, a produtora rural providencia o pão do café da manhã, a erva do chimarrão, o arroz, feijão e as verduras do almoço, e as frutas do café da tarde.

Filha de produtores rurais, ela carrega o orgulho de ser agricultora e entende a importância da preservação da natureza. “Eu posso dizer que sou Erveira. Vou logo pela manhã fazer as coisas, e com o maior orgulho. A gente planta tudo de forma orgânica, natural, nunca usamos químicos aqui. Eu cuido do meio ambiente”, explica.

A família trabalha principalmente com a produção de erva-mate, uma espécie nativa da região sul do Brasil, usada no preparo de bebidas como chimarrão, tererê e infusões (“chá mate”). É cultivada em modo agroecológico junto a remanescentes de Floresta com Araucária, e os cultivos agregam conhecimentos e saberes tradicionais e ancestrais. As plantações se consorciam com a vegetação nativa, aproveitando a iluminação e o sombreamento sobre as plantas, bem como os nutrientes providos pela própria floresta.

As mulheres rurais, segundo a FAO, são as principais responsáveis pela transmissão do conhecimento e da perpetuação da história de seus povos, incluindo conhecimentos técnicos, como manejo agroecológico, seleção de sementes ou uso medicinal de ervas. E na família Vergopolem não é diferente. O conhecimento da matriarca da família, Verônica, sobre o cultivo de erva-mate, foi passado para seus filhos, que desde pequenos acompanhavam os pais.

“O sentimento [de trabalhar com os filhos] é muito bom, porque sempre que a gente ia fazer alguma coisa, eles eram os primeiros a querer ir junto. Quando a gente falava de ir fazer alguma coisa no mato ou na lavoura, eles sempre iam e gostavam de fazer as coisas”, lembra Verônica, que fazia questão de ensinar os filhos sobre a importância da preservação da biodiversidade. “Eu gostava de ensinar as coisas para eles. Ia falando e conversando sobre como as coisas são, com carinho e amor”.

Afeto que (a)colhe

O carinho, a sensibilidade e o respeito pela natureza e pela agroecologia passados pela mãe, fizeram com que Jéssica Vergopolem também abraçasse o cultivo da erva-mate. “Foi o amor de mãe que me ensinou o amor pela natureza. Quando eu era pequena, ela levava a gente e mostrava a erva-mate. Ela sempre nos ensinou a amar e respeitar a natureza em primeiro lugar. Então o trabalho da erva-mate, ela mostrava como fazia, e foi de forma natural que eu recebi estes ensinamentos da minha mãe”, lembra a filha.

Juntas elas saem para fazer a coleta da semente, o plantio de mudas de erva-mate, a colheita das folhas e a poda. São reconhecidas pela sua prática de agricultura familiar que experimenta, testa e desenvolve novos conhecimentos. No caso da agroecologia, reforça ainda mais as importantes características de interação entre trabalho e o meio ambiente.

“Minha raiz é minha essência, é onde meus pés sempre caminharam, nessa terra e nesse chão. A erva-mate esteve comigo desde pequenininha. É um ensinamento muito bonito que recebi da minha mãe, e quero seguir fazendo, eu vejo como o meu futuro”, conta.

Para as duas, a mulher é quem possui o dom e a sensibilidade de aprender para ensinar aos outros, e a troca de experiência entre as mulheres rurais é muito importante para evoluir as formas produtivas preservando o planeta de forma justa.

“Eu vejo que as mulheres precisam estar cientes de que precisa se envolver em todos os campos. Não é porque sou mulher que não posso me envolver na política, por exemplo. Precisamos buscar um mundo mais justo para todas as pessoas e compartilhar esse conhecimento com todo o mundo. O conhecimento tem que ser transmitido, ampliado, não pode ter barreira. Tem que querer aprender e ensinar, e é isso que nós mulheres precisamos lutar para que aconteça”, completa Jéssica.

As mulheres são agentes cruciais de mudança na luta contra a pobreza rural, a fome e a desnutrição. Ao apoiar a melhoria da segurança alimentar e nutricional das mulheres, aumentar sua renda e aumentar seu poder de decisão, ao mesmo tempo em que se estimulam ambientes políticos conducentes ao empoderamento econômico das mulheres, será possível alcançar uma verdadeira mudança para um desenvolvimento rural inclusivo e sustentável.

Fonte: fao.org