Maternidade centenária - Jornal Iratiin

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sábado, 9 de maio de 2015

Maternidade centenária

Dona Nida é um exemplo para os filhos, netos, bisnetos e tataranetos

@Ana Paula Schreider/Hoje Centro Sul

Torcedora assídua do São Paulo e da Seleção Brasileira, campeã de torneios de truco. Desse jeito, ninguém imagina que estamos falando de uma tataravó centenária. Rodeada por 7 filhos, 28 netos, 35 bisnetos e 5 tataranetos, “tatinhos” como ela mesmo chama, Leonidia Lejambre de Camargo, a Dona Nida, leva uma vida tranquila na cidade de Imbituva.

Bisneta de um dos fundadores de Imbituva, Leonidia nasceu no dia 06 de maio de 1915. A primeira filha do Sr. Henrique Antonio Lejambre, filho de imigrantes franceses, e de Maria Eugênia Camargo Lejambre afirma ter crescido em um ambiente familiar de muita alegria e felicidade junto aos pais, aos dois irmãos e irmã.

Desde muito pequena se acostumou com as lidas da fazenda. Em sua montaria, acompanhando os peões que lá trabalhavam, reunia o gado no curral para a ordenha. No decorrer da vida, Leonidia demonstrou muita aptidão para os estudos. Aos 10 anos passou a ser interna no Colégio das Irmãs Ucranianas, em Prudentópolis.

Foi nessa mesma época que Leonidia reconheceu seu primeiro e único amor: Plínio Camargo. A família dele residia na pequena localidade de Lajeado, em Imbituva. Leonidia e Plínio eram primos e cresceram juntos. Foi na época em que ela tinha 10 anos, e ele 12, que o amor começou a despertar em seus corações.

A união de pessoas com grau de parentesco era praticamente inadmissível para a época, além disso, a diferença de classes sociais dificultava ainda mais a aceitação do relacionamento pela família Lejambre. Mas o amor do homem simples e humilde pela mulher de grandes posses e excelente educação foi maior que as barreiras e conquistou ambas as famílias. "Bem pobrezinho, mas rico de beleza, muito bonito! Era meu primo, então falaram: ‘mas como casar com primo?’ Ah, pois ele bonito, me gostava e eu gostava dele. Depois, eu achei tão feliz dormir com meu primo”, conta Dona Nida, arrancando risos dos familiares presentes.

No dia 05 de outubro de 1935, a jovem Leonidia sai da casa do pai, na Fazenda Barro Preto, e se casa com Plínio, aos 20 anos de idade. “Era de gosto de papai o casamento, ele matou dois bois, a festa durou três dias!”, relembra a senhora.

Em 1936, nasce o primeiro filho. Outros dois vieram enquanto o casal residia na localidade de Barro Preto. Aconselhados pelo pai, Leonidia e Plínio transferem residência para o sítio Lageado, onde Leonidia dá a luz a mais cinco crianças, mas desses, três vieram a falecer, causando muita dor à família, principalmente ao coração materno de Dona Nida. De 1952 a 1957 acontece o nascimento de mais quatro filhos do casal.

Leodinia alfabetizou os nove filhos. Na década de 1950, o prefeito de Imbituva a convidou para assumir o cargo de professora municipal, na localidade de Lageado, tarefa que assumiu durante seis anos.

A vida sempre foi simples, enquanto Plínio trabalhava como agricultor, Leonidia passava a maior parte do tempo cuidando dos filhos. “Nós não tínhamos dinheiro de sobra, apenas o suficiente, às vezes até faltava, mas nunca brigamos por causa de dinheiro, eu entendia a vida. Ele falava: ‘Você se criou na riqueza do teu pai e agora não tem nada’, eu respondia, estando junto com você está bom”, conta Dona Nida.

Em 1960, preocupados com os estudos dos quatro filhos mais novos, o casal compra uma propriedade em Imbituva, onde Dona Nida reside até os dias de hoje.

Em 1990, ela sofreu duas grandes perdas em sua vida, o falecimento de sua mãe e de seu esposo, após 55 anos de casado. Em 2010 e 2014, Leonidia enfrentou a perda de dois filhos.
Ainda assim, Dona Nida não demonstra a tristeza que as perdas da vida lhe trouxeram, pelo contrário, a centenária carrega alegria e muita fé em seu coração. “A minha família sempre foi muito religiosa. Uma vez eu estava dando de mamar a uma das crianças e ele se afogou e estava morrendo. Eu saí na porta segurando meu filho e disse ‘Nossa Senhora não deixe meu filho morrer’, na mesma hora ele se espichou e tornou”.

Dona Nida tem muitas histórias da prova da proteção divina. Com 90 anos de idade, ela descobriu um câncer maligno progressivo no nariz, a família ficou desolada. Mas, Dona Nida foi curada, segundo ela, por intervenção de Nossa Senhora. “Eu estava sentada aqui na área fazendo crochê, chegou uma mulher aqui na área, bonita, alta, de vestido longo e disse ‘Você quer sarar dessa ferida?’, sim, eu quero sarar dessa ferida, mas dizem os médicos que é câncer e não sara, ‘Sara! É só você por o dedo na ferida e rezar e oferecer para Nossa Senhora a tua reza’, e foi o que eu fiz e sarei”.

Os filhos afirmam que ela sempre foi uma mãe exemplar. “A minha mãe sempre foi muito materna, a única coisa que ela quer é sempre ter os filhos, os netos por perto. Até hoje, agora que estou morando aqui com ela, precisa avisar aonde vou, que horas volto, até agora o senso materno dela continua muito desenvolvido”, conta o filho Padre Gilson Cezar Camargo.

A filha Gracil Aparecida de Camargo, afirma que poder envelhecer ao lado da mãe é uma benção de Deus. “Ela é uma mãe amorosa, conselheira, amiga, ela é tudo, é a nossa riqueza, nós nem pensamos em ficar sem ela, para nós ela vai ser eterna”, diz.

Leonidia e Plínio sempre fizeram questão de manter a família reunida. “A nossa família é uma família muito festeira, muito alegre, qualquer motivo é hora para puxar um violão, uma sanfona e cantar desafinado. Essa forma de criar a família sempre unida serve para dar força e apoio na hora da alegria e da tristeza também”, relata a neta Magali de Camargo.

“O meu marido tocava violão, eu dançava e cantava, hoje eu ainda danço, eu tenho um neto muito dançador, dançamos valsa bem os dois”, afirma Dona Nida.

Quando questionada sobre sua longevidade, Dona Nida atribui a saúde à família. “Eu me sinto muito feliz, sou muito acariciada, o carinho da família é o sustento maior, eles são muito bons para mim, graças a Deus eu ganhei uma família muito boa”.

E sobre os segredos para chegar até os 100 anos, a senhora diz que é preciso ter calma e saber sempre perdoar. Para finalizar, o segredo de tanta disposição é muito torresmo e viradinho de feijão, conta Dona Nida com um sorriso no rosto.

E é com esse mesmo sorriso que ela encerra a conversa mostrando total lucidez e boa memória ao cantar a canção que Plínio compôs para ela há 85 anos. Numa voz rouca e enfraquecida, embalada pelo ritmo de sua memória, Dona Nida se despede relembrando o amor que deu início a história dessa grande mãe: “Oh mulher, tu bem sabes que eu sou pobre, pobre, bem pobre; Nada tenho a te dar; O bom Deus que te deu tanta riqueza; E a mim, me deu um coração para te amar”.

Ana Paula Schreider/Hoje Centro Sul