Entenda o reajuste dos impostos e como a mudança irá afetar a economia - Jornal Iratiin

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domingo, 1 de fevereiro de 2015

Entenda o reajuste dos impostos e como a mudança irá afetar a economia




Os governos, assim como qualquer trabalhador, também possuem contas para pagar. Para poder efetuar o pagamento de funcionários e de dívidas, os governos adquirem renda através da cobrança de impostos. Sendo assim, os governos devem administrar esse dinheiro, de modo que consigam pagar todas as dívidas e poupar certa quantia para um fundo de emergência.

O fundo de emergência não é exclusividade dos governos e também devem ser adotados por todos os trabalhadores. Poupando uma parte da renda mensal, o trabalhador, assim como o governo, possui dinheiro para situações emergenciais, que não estavam previstas no orçamento do mês, como a compra de remédios ou o conserto do chuveiro, por exemplo. Caso não haja esse fundo e o trabalhador, ou o governo, gaste constantemente mais do que receba, os endividamentos podem aparecer.
O economista Avonir Funes explica que o aumento dos impostos (estaduais e federais) ocorreu devido a essa situação, do desequilíbrio entre gastos e receitas – o dinheiro que é recebido. “O que ocorreu foi esse desequilíbrio. É fundamental que se gaste menos do que se ganha, do contrário, você pode se endividar e aí, se não for corrigido a tempo, vira uma bola de neve. Agora, chegou o momento de acertar as contas, pois muito do dinheiro recebido foi investido em situações que não geraram o retorno esperado. Sendo assim, as dívidas apareceram”, destaca.

Ele ainda ressalta que o problema não é exclusividade do governo federal e alguns estados brasileiros passam pela mesma situação. “Muitos estados também fizeram a mesma coisa, como é o caso do Paraná e do Distrito Federal. Gastaram mais do que receberam e, agora, precisam pagar”.
Consequências
Os reajustes realizados também irão trazer consequências para a economia brasileira. Segundo o economista Avonir Funes, um dos principais efeitos das mudanças será a recessão econômica, ou seja, uma diminuição na produção e consumo dos produtos.

“O aumento dos impostos vai inibir a atividade econômica, pois irá gerar mais gastos. Se está mais caro produzir, as empresas irão diminuir a compra de materiais e, consequentemente, a produção. Estando mais caro produzir, o reajuste será repassado ao consumidor, que irá pensar duas vezes se vale pagar mais caro. A tendência é que o consumidor corte gastos com lazer e alguns gastos extras não tão importantes para a sobrevivência”, completa.

O contador Agostinho da Rosa acredita que as mudanças serão sentidas, principalmente, no primeiro semestre de 2015, mas a tendência é que a situação se normalize no segundo semestre. “Isso vai interferir diretamente no primeiro semestre, pois foi algo que caiu de uma vez na vida do consumidor. Então, os brasileiros terão que se precaver nesse primeiro momento, tentar controlar os gastos. A tendência é que o segundo semestre seja mais tranquilo, pois os brasileiros já estarão habituados à mudança e tentarão corrigir os erros do primeiro semestre”.

Ainda segundo ele, os reajustes são direcionados às indústrias e empresas, porém, grande parte das despesas extras será repassada ao consumidor. “Todos os aumentos são direcionados às indústrias e empresas, mas nós sabemos que nesses casos, o consumidor final é o principal afetado. Quando esse tipo de reajuste é anunciado, o aumento nos produtos para o consumidor já é esperado”, diz.

Apesar da dificuldade para a economia brasileira, o economista Avonir Funes afirma que, caso as medidas tenham sucesso, a situação tende a ser momentânea. “Estamos passando por esse reajuste doloroso, mas, caso o caixa do governo se estabilize, o Brasil pode voltar a crescer. Dessa forma, teremos mais dinheiro para investir e, futuramente, um maior desenvolvimento. É claro que poderíamos ter feito ajustes menos extremos, caso tivéssemos administrado melhor o dinheiro que tínhamos”, destaca.

Inflação x custo de vida


Avonir Funes 
O economista Avonir Funes afirma que muitas pessoas ainda confundem inflação com custo de vida. Ele ressalta que as duas coisas são diferentes e ainda explica como é possível definir os dois termos. “Precisamos deixar claro que custo de vida é diferente de inflação. O aumento do custo de vida, por exemplo, acontece quando as marcas de itens específicos que você usa aumentam ou quando você começa a utilizar itens mais caros ou em maior quantidade”.

Já a inflação, segundo Avonir, pode ser entendida como um aumento constante e generalizado de preços. “A definição de inflação é essa, quando todos os produtos estão aumentando e constantemente, não quando aumenta o preço de um produto específico. O cálculo da inflação é feito através do cálculo da média dos preços. Por exemplo, podemos fazer uma análise com o feijão. Eu pego a marca do feijão que eu compro, a marca que o meu vizinho compra e todas as outras disponíveis no mercado. Repito isso todos os meses com o feijão e outros produtos, como arroz, farinha, biscoito, entre outros, e, caso ocorra sempre um aumento, significa que a inflação aumentou”, explica.

Poupar e investir

Com o anúncio das mudanças nos impostos, muitos brasileiros estão preocupados. Avonir Funes dá dicas sobre o que fazer com o dinheiro nesse período de possível recessão. “Temos que analisar o que está favorável para o momento. Eu espero um ano difícil, porém, com esse reajuste, alguns investimentos podem se tornar rentáveis, já outros não. Vamos pegar o exemplo dos imóveis, que nesse momento estão se desvalorizando e já não são uma boa opção para quem pretende investir”, conta.

O economista ainda destaca que poupar dinheiro deve ser regra, independente do momento da economia. “Guardar dinheiro é sempre primordial, tem que ser regra. Desde o primeiro salário temos que poupar, ter aquele dinheiro extra, pois nunca sabemos o dia de amanhã e quando iremos precisar”.

Para quem possui dinheiro extra e pretende investir, Avonir afirma que as melhores opções, no momento, são o Tesouro Direto e a Bolsa de Valores. “O Tesouro Direto tem um risco pequeno a médio e, com o aumento dos impostos, os juros em cima dele aumentam. Então, para quem pretende investir, aconselho a pesquisar sobre essa opção, porque os ganhos serão bons. Já para quem tem mais dinheiro, uma ótima oportunidade agora é a Bolsa de Valores. Com o reajuste anunciado, muitas empresas perderam valor na bolsa, então, as ações estão com um preço baixo. Mas vale lembrar que esse investimento é de alto risco”, finaliza.

Motivos

IOF sobre crédito de até 365 dias (sobe de 1,5% para 3%): O Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) é uma taxa federal. Nessa mudança, o aumento será aplicado apenas nas operações de crédito, isto é, empréstimos, financiamentos ou parcelamentos. Vale lembrar que o reajuste é apenas para operações de crédito de até 12 meses. Para as operações acima de 12 meses, o valor da taxa permanece o mesmo, em 1,5%. A Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac) realizou algumas simulações para mostrar ao público o impacto do aumento. 

Confira:
1) Empréstimo pessoal em banco
Prazo: 12 meses
Valor: R$ 4.000,00
Taxa de juros: 3,61% ao mês (média)
Antes (com IOF de 1,5% ao ano): 12 parcelas de R$ 424,45 (total de R$ 5.093,40)
Agora (com IOF de 3% ao ano): 12 parcelas de R$ 430,70 (total de R$ 5.168,40)
A elevação do IOF representará uma elevação de R$ 6,25 na prestação e de R$ 75,00 no total do financiamento


2) Financiamento de automóvel
Prazo: 12 meses
Valor: R$ 25.000,00
Taxa de juros: 1,84% ao mês (média)
Antes (com IOF de 1,5% ao ano): 12 parcelas de R$ 2.384,83 (total de R$ 28.617,96)
Agora (com IOF de 3% ao ano): 12 parcelas de R$ 2.419,94 (total de R$ 29.039,28)
A elevação do IOF representará uma elevação de R$ 35,11 na prestação e de R$ 421,32 no total do financiamento

Combustíveis: As mudanças que devem elevar o preço da gasolina e do diesel são os aumentos do PIS e da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e o retorno da Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide).
Os impostos que terão aumento imediato são o Cofins e o PIS. Já a elevação do Cide deve começar a valer daqui a 90 dias, em abril. Com o reajuste, o PIS/Cofins irá custar R$0,22 por litro da gasolina e R$0,15 por litro do diesel.
Quando o aumento do Cide entrar em vigor, o PIS/Cofins cai para R$0,12 por litro da gasolina e R$0,10 para o litro do diesel. O Cide irá custar R$0,10 por litro da gasolina e R$0,05 por litro do diesel.
As mudanças, no entanto, não significam elevação no preço da gasolina ou do diesel. O aumento dos impostos é destinado às refinarias. Segundo a Petrobras, a elevação das taxas também será repassada às distribuidoras, que decidem se irão manter ou aumentar o valor do combustível.
O Cide foi zerado em 2012 com o objetivo de diminuir o impacto causado pelo aumento dos preços cobrados pela Petrobras. Atualmente, no mercado internacional, o valor do petróleo e dos combustíveis está em queda.  Segundo dados do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o preço da gasolina no Brasil está quase 70% maior do que o preço de referência internacional.

Importações: As mudanças que devem elevar o preço dos produtos importados são os aumentos do PIS e da Contribuição para Financiamento da Seguridade Social (Cofins). A cobrança passa de 9,25% para 11,75%. Apesar disso, a mudança só começa a valer a partir de junho de 2015.

Cosméticos: O governo também anunciou mudanças no Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre cosméticos. A taxa não será aumentada, mas haverá uma equiparação entre atacadistas e produtores industriais. A medida busca acabar com a diferença de tributação entre os dois segmentos. Atualmente, muitos produtores abrem empresas atacadistas, que pagam menos impostos, para vender os produtos a preços mais baixos. Isso não será mais possível com a nova mudança.

Financiamento e juros do BNDES: O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) também sofreu mudanças na sua política operacional para o setor produtivo. Com isso, o limite de financiamento e os valores dos juros foram alterados.
Agora, o BNDES poderá financiar até 70% do plano de investimento de uma empresa. Antes da mudança, esse valor era de 90%. A Taxa de Juros de Longo Prazo (TJPL) também sofreu alterações. A TJPL foi elevada para 5,5% ao ano. Além da TJPL, os juros do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) também subiram.
O objetivo dessa medida é diminuir o valor dos subsídios repassados pelo governo.

IPI para automóveis: Outro imposto que também sofreu alterações em 2015 foi o Imposto Sobre Produtos Industrializados (IPI) incidente sobre os automóveis. Reduzido por muito tempo, agora o IPI sobre os automóveis sofreu aumento.
Por exemplo, no ano passado, para um carro 1.0 movido à gasolina, o IPI era de 3%. Com o reajuste, um carro nas mesmas condições terá um IPI de 7%. Vale lembrar que os juros mudam de acordo com a potência do veículo e o combustível usado (gasolina ou flex).
O aumento do IPI, porém, não representa um reajuste imediato para os consumidores, pois ainda existem veículos nos estoques das montadoras que foram taxados com IPI reduzido.

IPVA: O Imposto Sobre a Propriedade de Veículo Automotor (IPVA) teve reajuste no Paraná. A alíquota para cálculo do valor do IPVA subiu de 2,5% para 3,5% sobre o valor venal do veículo. Outra mudança no IPVA foi o desconto concedido para quem opta pelo pagamento à vista. Antes, o desconto era de 10%. Agora, a porcentagem diminuiu, e o desconto fica em 3%.



Kyene Becker/Hoje Centro Sul

Fotos: Ciro Ivatiuk / Hoje Centro Sul e Silmara Andrade / Hoje Centro Sul