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quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

País Pedinte

Todos os dias somos abordados nas ruas, nos ônibus e até em nossas casas por pessoas com folhetos, listas e outros mecanismos para pedirem ajuda, especialmente para comprar comida e remédios, mas também por alegações das mais variadas e inimagináveis. Ajuda aos favelados, aos vizinhos em dificuldade e aos empregados domésticos são as mais comuns, além dos meninos de rua e outras mil e uma entidades de proteção a menores desamparados. O que seria para ocorrer periodicamente, virou rotina. Hoje não se faz um percurso de ônibus, independente da distância, sem a presença de pedintes. Estão na crista da onda, os ex-dependentes de drogas ajudando as casas que lhes salvaram.
A hipocrisia da sociedade sustenta essa conduta viciada. Erro não há em pedir ou em dar. Mas se deve tomar muito cuidado. Pedidos dessa natureza deveriam acontecer somente em casos excepcionais. Pede-se "por que seria melhor do que roubar". Esse quadro reverter-se-á quando não tiverem vergonha de trabalhar, por mais humilde que seja o serviço. O "caridoso" também deve exigir alguma retribuição e nunca entregar o pão fácil do dia-a-dia, especialmente em dinheiro. O país da caridade excessiva é o mesmo da miséria absoluta. Esses itens, somados às religiões, contribuem para a manutenção desse espírito de solidariedade que sustenta a pobreza como virtude humana.
Devido à amplitude do tema e ao pequeno espaço, o enfoque se restringe a alertar a população dos cuidados que devem ser tomados com o objetivo de evitar que esse benefício não se torne um mecanismo de vida fácil. Pedir é difícil enquanto não é meio de vida. Depois, falar em trabalhar para quem se acostumou a pedir é incorrer em sério risco de ser agredido fisicamente.
Recentemente, devido ao ipobe - e miséria é campeoníssima nisso - as televisões, através da jogatina dos seus tele-900, disfarçada de amparo assistencial às casas beneficentes e de outras atividades sociais, vêm incentivando e fomentando essa prática como o único meio de solucionar problemas.
A função que seria das instituições públicas passou para a sociedade, que dia-a-dia sente-se mais responsável pela substituição do papel do Estado. Ora, ao contrário de darem certas soluções momentâneas e paliativas, todos deveriam unir-se para cobrar daqueles que têm a obrigação e o dever de solucionarem os problemas. Com as melhores das intenções em ajudar, essa gente que dá esmola contribui para isentar os administradores das suas responsabilidades. Como regra, estes vivem a dizer que são o reflexo da sociedade.
Como existem deturpações de imagens, eles são um péssimo reflexo. Apesar de ingênua, quase sempre, a população ainda é muito melhor e mais sadia dos que esses representantes que, aproveitadores do fato de serem eleitos pelo povo, sem verificar em que moldes, costumam atribuir à população o cinismo que lhes norteiam, o que não é verdade.
Brasileiramente, somos campeões em resolver um problema criando outro maior. Esse assistencialismo gratuito e vulgar gera chefe de grupo de crianças pedintes e "pais adotivos" de toda sorte. Essa jogatina deve ser substituída apenas por uma linha de atuação mais independente e corajosa das emissoras. E acabar com esse faz-de-conta. As pessoas, em lugar de choramingar alguns gramas de comida, devem protestar e se organizarem mais, buscando uma solução definitiva para a fome. Embora contra a vontade de muitos exploradores da miséria, basta luta e responsabilidade para acabar com essa fome institucionalizada que existe no Brasil.
Problemas sociais se resolvem com projetos e trabalho, muito trabalho. Esmola, apesar de ser um gesto nobre, só contribui para aumentar o número de miseráveis e de pedintes!


 


Pedro Cardoso da Costa - Interlagos/SP


Publicado na edição 658, 13 de fevereiro de 2013.