Nova pintura de escola vira alvo de crítica - Jornal Iratiin

Recente

Home Top Ad

Post Top Ad

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Nova pintura de escola vira alvo de crítica

Pais, funcionários e professores manifestam diferentes opiniões sobre a pintura da fachada da Escola Vanda Hessel




[caption id="attachment_24808" align="aligncenter" width="420" caption="A pintura nova rendeu apelidos: Galinha Pintadinha e Patati Patatá"][/caption]

Rio Azul - A nova pintura da Escola Municipal Vanda Hessel, em Rio Azul, se tornou alvo de controvérsias. Em dezembro de 2012, o prédio recebeu uma pintura nas cores azul, amarelo e verde, que aludem ao município, porém, em tons mais fortes que nos demais prédios públicos e diferem, até mesmo, daqueles aplicados na extensão da escola, construída recentemente.
O que pesa, ainda mais, nesse caso, é o fato de que o prédio, datado de 1935, foi tombado pelo patrimônio histórico, por força de uma lei assinada em dezembro de 2006, pelo então prefeito de Rio Azul, Alexandre Burko. O texto da lei diz que, como prédio tombado, deve ser assegurada a manutenção das características originais do edifício. Assim, a manutenção das cores fica apenas implícita.
Três diferentes correntes de opiniões foram apresentadas por pais, funcionários e professores, que comentaram também as considerações dos alunos a respeito da nova pintura, que apresenta tons escuros de azul, verde e amarelo. Aliás, quando a reportagem do Hoje Centro Sul parou na rua para se informar sobre o endereço da escola, o azul que predomina na fachada foi a referência de localização dada por um morador.
Contudo, o entrave impediu até mesmo a conclusão da pintura, que iniciou no último mês da gestão anterior. O novo prefeito de Rio Azul, Paulo Girardi, aguarda que a população se manifeste para decidir se prossegue com a pintura nova ou se retoma à antiga. O impasse é afetado pela questão da insurgência popular que, por um lado, discorda das cores novas e, por outro, pode apontar um possível desperdício de dinheiro público caso o prédio seja repintado na cor original. Há, ainda, quem defenda que a parte antiga da instituição receba pintura similar à da extensão, que possui as cores de outros prédios municipais, que incorporam tons mais claros.
A professora de Arte, Vera Lúcia Zem, que leciona há mais de 20 anos, explica que no próprio curso de magistério se aprende que a mistura de muitas cores num ambiente pode tornar a criança mais agitada. "Creio que deveria ser usada uma cor mais homogênea, o que poderia contribuir até para a tranquilidade das crianças", opina. Ela explica que, segundo a teoria das cores, o amarelo sugere alegria e torna a criança mais eufórica; já o azul, se usado em tons claros - como o tom aplicado na extensão do prédio - tranquiliza.
As cores foram usadas apenas na parte externa da escola - e apenas na frente e de um dos lados, pois a pintura foi interrompida pela metade. Perguntamos à professora se essas cores fortes interferiam no ambiente interno das salas e contribuiriam, de alguma forma, para dispersar a atenção dos alunos, que teriam seus olhares voltados para as janelas, e ela confirmou.




[caption id="attachment_24809" align="alignright" width="420" caption="Alguns pais e professores opinaram que, em vez das cores empregadas, poderiam ser aplicados os tons usados na extensão da escola"][/caption]

Ela compara com a pintura de uma residência, em que admite ser comum usar mais de um tom, mas de uma mesma cor, no máximo, duas. "No nosso caso, na nossa escola, misturaram todas as cores, de todas as formas", reclama. De acordo com ela, o maior problema é ter interferido na cor que fazia parte da fachada original, pois, pelo fato de integrar o patrimônio histórico municipal, Vera Lúcia imagina que deveria ser mantida a cor anterior, que usava um tom homogêneo, segundo ela. "O problema mesmo é a mistura de cores, pois estávamos acostumados a ver um prédio mais tradicional. Do jeito que estava, estava bom", conclui.
A pedagoga Adriane da Luz Soares, que atua há cinco anos, concorda com Vera Lúcia e acrescenta que, pela troca, "deu para perceber que quiseram unificar os prédios municipais com as mesmas cores: azul, verde e amarelo, da bandeira do município. Mas acredito também que, para a escola, seria interessante uma cor mais neutra", avalia. Ela sugere o uso desse padrão de cor, mas num tom mais claro, que acalmasse o olhar. "Sou a favor que a escola retornasse a ter a cor antiga, mas que fosse o prédio todo e que tudo dentro da escola fosse uma cor neutra. Inclusive nas instalações novas. Tudo da mesma cor. Não concordei com essa mudança", opina.
A professora do 5º ano do ensino fundamental, Adelair Stroparo, até aceita que a escola fosse pintada dessa cor, desde que o tom fosse mais claro, mas disse que preferia que se mantivesse a cor antiga, sem mudar. A opinião é partilhada por Andrea Surmacz Valentim, mãe de uma aluna da Escola Municipal Vanda Hessel: "Como o patrimônio histórico não pode ser mudado na estrutura, na cor acho que deveria ter ficado a mesma cor", diz.
Célia Martins Zatti, professora de 1º e 5º anos, além da própria opinião, expôs a impressão que os alunos tiveram. Ela disse não ter gostado das novas cores e acredita que poderia ter sido aplicado os tons pastéis da extensão da escola. Segundo ela, parte dos alunos chegou até a apelidar o prédio de "Patati e Patatá" - em referência aos palhaços - e de "Galinha Pintadinha" - em alusão ao personagem infantil, que é azul. "Não agradou nem mesmo as crianças. Elas precisam de um ambiente legal para estudar", considera.
O novo diretor da escola, Edson José de Oliveira, gostaria que a prefeitura pintasse a escola no mesmo tom que o prédio novo. "Uma cor mais clara, mais viva, que traz alegria para as crianças. Porque, para nós, professores, já se pede para virmos trabalhar com uma cor mais clara, para que, assim, a criança possa até ser mais estimulada à aprendizagem", destaca.
O presidente da Associação de Pais, Mestres e Funcionários (APMF) da escola, Dorival Gapiski pondera sob dois diferentes pontos de vista, mesmo crendo que deva ser refeita a pintura. "Se for olhar pelo lado financeiro, acredito que tinha que terminar do jeito que está. Mas se for analisar pela estética, teria que se fazer como a parte nova da escola", observa. Contudo, ele frisa que a sugestão de mudar a pintura para os tons mais claros da nova parte da escola é opinião pessoal e que os pais devem ser consultados, e ele acredita que as opiniões sejam divididas.




[caption id="attachment_24810" align="alignleft" width="420" caption="Com o dilema, a intervenção parou na metade. A dúvida está entre manter as cores originais ou prosseguir com as novas"][/caption]

Sua esposa, Sirlei Gapinski, ressalta outro aspecto: "Se há dinheiro para fazer essa pintura, então a merenda também pode ser melhorada; pode-se comprar outros equipamentos para a escola, como bebedouros, brinquedos para as crianças. Muitas outras coisas podem ser feitas com esse dinheiro, na minha opinião", defende.
Quanto à possibilidade de a APMF convocar uma reunião com os pais e fazer uma consulta pública a respeito da opinião sobre a pintura nova, Dorival atribui que seria difícil neste momento, em virtude de muitos pais não poderem comparecer, pois estão em plena safra do fumo.
De acordo com o modelo de lei de tombamento elaborado pela Coordenação de Patrimônio Cultural (CPC), da Secretaria de Estado da Cultura (SEEC), que discorre sobre a preservação do patrimônio, cabe ao Conselho Municipal de Patrimônio Cultural - responsável pelos tombamentos municipais - definir e delimitar a preservação e os parâmetros de futuras intervenções: para o bem natural, um plano de manejo, e para o bem arquitetônico, um plano de uso. Esse conselho também define que características serão incluídas no livro do tombo ou de registro.
Na conceituação geral da gestão de bens, a SEEC afirma que alguns prédios deixam de lado detalhes que, em longo prazo, podem levar ao desvirtuamento e descaracterização de conjuntos extremamente significativos do ponto de vista cultural. Portanto, no processo de restauro de um bem patrimonial deve-se também preocupar com a preservação da originalidade, segundo a CPC.




Texto e fotos: Edilson Kernicki, da Redação


Publicado na edição 659, 20 de fevereiro de 2013.