Bombeiros relatam o que sentiram e como organizaram o trabalho durante enchente - Jornal Iratiin

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domingo, 6 de julho de 2014

Bombeiros relatam o que sentiram e como organizaram o trabalho durante enchente

Os bombeiros Garcia e Burgat revelam que o resgate mais complicado durante a enchente do mês de junho foi de uma família de quatro pessoas, que era uma dentre muitas que estavam com a água pelo pescoço. Porém, nessa família havia um homem paraplégico. “Nesse resgate o barco ficou sem motor, eu tive que sair nadando, enfrentando a correnteza e arriscando minha vida para buscar ajuda de outras embarcações. Até eu buscar socorro, Burgat ficou tranquilizando a família, com o bote amarrado em uma das colunas da casa", conta Garcia.

Thaís Siqueira/Hoje Centro Sul
 Em todo Paraná, no mês de junho, 155 municípios foram atingidos pelas intensas chuvas. O município de Irati foi um dos afetados e, de acordo com informações da Defesa Civil, cerca de 1.500 pessoas ficaram desalojadas e 100 desabrigadas. Houve 12 feridos e seis vítimas hospitalizadas.
De acordo com a 1ª tenente Carla Adriana Prado Spak Sobol, subcomandante do Corpo de Bombeiros de Irati, felizmente no município não foi registrado nenhum óbito relacionado às inundações. Diante deste fato, a atuação não só do Corpo de Bombeiros mas dos inúmeros voluntários que trabalharam na retirada de pessoas em situações de risco foi de extrema importância, pois o bem maior que é a vida foi preservado. “A atuação do Corpo de Bombeiros foi de vários longos dias, e continuamos ainda prestando atendimento às cidades vizinhas em relação à entrega de donativos”, comenta.

Durante as enchentes os Bombeiros realizaram vários atendimentos, como: retirada de pessoas das casas atingidas utilizando embarcações; encaminhamento ao hospital de pessoas que tiveram agravo à saúde devido à cheia do Rio das Antas e atendimento à acidente de trânsito com condutores que arriscaram suas vidas tentando passar em pontes ou estradas que se encontravam submersas pelas águas.
A Defesa Civil no Município de Irati há anos vem fazendo, juntamente com o Corpo de Bombeiros, trabalhos embasados nos planejamentos da Defesa Civil Estadual.
“Está sendo desenvolvido, não somente em Irati, mas também em todo o Estado, o Plano de Contingência que estabelece os procedimentos a serem adotados pelos órgãos envolvidos na resposta a emergência e desastres”, explica a tenente Spak.
Ela comenta que a Defesa Civil de Irati é bastante atuante e já desenvolve ações organizadas em resposta a situações de emergência. "Isto se dá pelo comprometimento e dedicação de todas as pessoas que são responsáveis pela Defesa Civil no Município, diminuindo o tempo resposta e prestando um atendimento de melhor qualidade às pessoas atingidas nos eventos danosos, principal objetivo deste trabalho", enfatiza a tenente Spak.

Relato dos bombeiros

O 2º sargento Garcia, que atua como bombeiro há 27 anos, confessa que durante seu trabalho nas enchentes do mês de junho, sentiu muita tristeza e dó das famílias atingidas. “Eu olhava para a correnteza e parecia que o mundo estava desabando, de tanta água que vinha. Não tinha dragagem dos rios que adiantasse, porque era muita água mesmo. Só por Deus que não morreu ninguém, porque poderia ter morrido”, expõe.

Segundo Garcia, o maior risco que algumas pessoas ofereceram para elas mesmas, durante a inundação, foi permanecerem dentro de suas residências, esperando a água baixar.
Quando se deram conta, a água já estava chegando no teto, trazendo grandes riscos de afogamentos, problemas de saúde e/ou ferimentos graves.

“Muitas famílias estavam morrendo afogadas em suas residências, com a água pelo pescoço e pedindo socorro. Quando entramos em ação com as embarcações para fazer a retirada das pessoas, tinha gente implorando socorro por todos os lados e nós ficávamos sem saber qual família resgatar primeiro”, relembra Garcia.

Garcia revela que já trabalhou em várias enchentes, e tem uma história que insiste em persistir em todas elas. “Sempre cito o seguinte ditado: brasileiro deixa tudo pra última hora, e não é que é verdade? As pessoas permanecem nas casas até que a água consiga atingir o nível do pescoço, oferecendo risco à vida daqueles que precisam salvá-los e a eles próprios. Isso tem que parar de acontecer, as pessoas precisam se conscientizar que isso é uma atitude totalmente errada”, fala.
Ele enfatiza a importância das pessoas não permanecerem em suas residências, pois quem não fica dentro, não oferece riscos, facilitando o trabalho dos bombeiros para outras operações. “Eu arrisquei minha vida, nadei contra a correnteza para salvar muitas vidas, eu podia ter morrido na água, se encontrasse algo que pudesse me ferir”, diz.

Garcia alerta todas as pessoas que vivem ou trafegam em áreas que oferecem risco de inundação, para estarem sempre atentas às notícias da imprensa e autoridades para obterem informações antecipadas sobre o problema,  para poderem tomar providências relacionadas à segurança.

“A minha principal orientação é que ao menor sinal de inundação, as pessoas devem sair imediatamente de suas casas e procurarem um lugar seguro. Muitas vezes as enchentes acontecem de forma rápida e quem souber onde existe o perigo, será mais fácil evitá-lo”, explica.

Paixão por salvar vidas

Garcia vem de uma família de militares, e segundo ele, carrega isso no sangue com muita honra e amor. “Ser bombeiro na minha maneira de pensar, é um sacerdócio, precisa gostar muito para estar no ramo. Enquanto todos estão saindo do prédio em chamas, eu estou entrando. Quero ainda poder trabalhar muitos anos salvando vidas, pois isso me faz bem”, diz.
O soldado Burgat, que também trabalhou nas inundações, está na profissão de bombeiro há nove anos e ele revela que nas operações da enchente um soldado se feriu e permanece de licença. Segundo ele, a profissão é tudo em sua vida, e uma das suas paixões é salvar vidas, o que pretende fazer por muitos anos.

Burgat relata a situação que mais o marcou nas operações da inundação: “foi o fato de um casal de idosos que estava totalmente isolado, e não tinha por onde sair. O casal que estava com a água no pescoço, a mulher bastante debilitada, não conseguia mais andar, e o senhor tinha passado por uma cirurgia de ponte de safena, recentemente, onde sofre uma grande cirurgia no tórax. Foi um resgate muito delicado e que graças a Deus foi realizado com sucesso. Quando sai no pátio da casa havia aproximadamente 15 cachorros, pois a senhora faz parte do S.O.S Amigo Bicho e pediu para eu resgatar os animais, e eu resgatei todos e coloquei-os em cima do teto. Se eu deixasse aqueles animais lá, eu sentiria uma culpa a vida inteira. Embora a prioridade fosse à vida humana, também salvei animais”, comenta.

Garcia e Burgat revelam que o resgate mais complicado foi de uma família de quatro pessoas, que também estava com a água pelo pescoço. Porém, entre aquelas pessoas, havia um homem paraplégico. “Nesse resgate o barco ficou sem motor, eu tive que sair nadando, enfrentando a correnteza e arriscando minha vida para buscar ajuda de outras embarcações. Até eu buscar socorro, Burgat ficou tranquilizando a família, com o bote amarrado em uma das colunas da casa. Foi um resgate emocionante e também realizado com êxito”, finaliza com emoção.

Dia do Bombeiro

Nesta quarta-feira (02/07) é comemorado o Dia do Bombeiro Brasileiro, uma corporação da Defesa Civil que se encontra diretamente ligada à Polícia Militar, é uma das profissões mais conhecidas e valorizadas do mundo.

A data foi decretada oficialmente no Brasil em 1954, sendo celebrada há 60 anos em comemoração ao decreto n° 1.775, assinada por D. Pedro II em 1856 e que regulamentava pela primeira vez o serviço de extinção de incêndios no Brasil.

Por Thaís Siqueira